04 de fevereiro de 2026

Quem cuida de quem cuida de nós?


Por Rodrigo Vargas de Souza Publicado 04/10/2019 às 03h00 Atualizado 02/11/2022 às 20h08
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Psicologia para agentes de trânsitoFoto: Alex Rocha/PMPA

Há, aqui em Porto Alegre, um famoso vereador que, já há mais de um mandato, angaria votos disseminando um discurso de ódio contra os agentes da cidade, sobre o qual eu já havia escrito neste outro artigo. Dentre os diversos chavões utilizados no seu discurso está o de que é necessário “fiscalizar quem fiscaliza“.

Esse tipo de pensamento e de discurso não é novo e nem é uma realidade exclusiva da capital gaúcha, infelizmente. Agentes de trânsito fazem parte de uma categoria que, assim como diversas outras, presta um trabalho de suma importância para a sociedade, mas que não é aceita, respeitada e nem valorizada.

Graças ao alcance proporcionado pela internet e pelas mídias sociais, tenho recebido feedback de colegas de diversos outros estados sobre o meu trabalho. No entanto, pela minha formação na área da Psicologia, são cada vez mais constantes mensagens de colegas relatando no seu meio profissional algum tipo de desordem de fundo emocional, deles mesmos ou de colegas seus.

Sendo assim, fico me questionando: QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA DE NÓS?

Somos desacreditados quase que diariamente pela população, pela mídia e, muitas vezes, pelos próprios órgãos de trânsito, justamente os que deveriam nos dar respaldo…

E se isso tudo já não fosse o suficiente, não temos aqui no país uma cultura de cuidado e muito menos prevenção ao que diz respeito às questões emocionais, seja no âmbito pessoal, seja no profissional.

Isso tudo acaba, infelizmente, culminando em algo que, com um pouco mais de interesse por parte desses órgãos, poderia ser diagnosticado e evitado, como afastamentos por depressão, ansiedade e, em certos casos, até mesmo suicídio.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos mentais menores acometem cerca de 30% dos trabalhadores ocupados e os transtornos mentais graves, cerca de 5 a 10%. Estima-se um custo de 12,5 bilhões/ano para empresas e de mais de 20 bilhões/ano para contribuintes. No Brasil, 3º lugar em causa de benefício no INSS, com destaque para o alcoolismo.

Por isso:

Compreender o sofrimento psíquico do trabalhador implica em antes investigá-lo, considerando a cultura e seus valores, significa, ainda, relacionar este sofrimento aos processos subjetivos envolvidos no campo do trabalho. Os valores organizacionais servem à própria sobrevivência da organização e, por essa razão, buscam mediar conflitos para resolver problemas. (Mendes & Tamayo, 2001).

žMendes, A. M. & Tamayo, A. (2001). Valores organizacionais e prazer-sofrimento no trabalho. Psico-USF, 6(1), 39-46.

Rodrigo Vargas de Souza

Sou formado em Psicologia pela Unisinos, atuo desde 2009 como Agente de Fiscalização de Trânsito e Transporte na EPTC, órgão Gestor do trânsito na cidade de Porto Alegre. Desde 2015, lotado na Coordenação de Educação para Mobilidade do mesmo órgão.Procuro nos meus textos colocar em discussão alguns dos processos envolvidos na relação do sujeito com o automóvel, percebendo a importância que o trânsito, espaço-tempo desse encontro, vem se tornando um problema de saúde pública. Tendo como objetivos, além de uma crítica às atuais contribuições (ou falta delas) da Psicologia para com a área do trânsito, a problematização da relação entre homem e máquina, os processos de subjetivação derivados dessa relação e suas consequências para o trânsito.Sendo assim, me parece urgente a pesquisa na área, de forma a se chegar a uma anuência metodológica e ética. Bem como a necessidade de a Psicologia do Trânsito posicionar-se de forma a abrir passagem para novas formas heterogêneas de atuação, que considerem as singularidades ao invés de servirem como mais um mecanismo de serialização das experiências humanas.

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