18 de maio de 2026

Primeira CNH: flexibilização na formação reacende debate sobre preparo real dos condutores

Mudanças recentes reduziram exigências no processo de habilitação e levantam questionamentos sobre impactos na segurança viária.


Por Mariana Czerwonka Publicado 18/05/2026 às 08h15
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Primeira CNH formação
Desde dezembro do ano passado, mudanças nacionais no processo de formação de condutores flexibilizaram etapas históricas da habilitação. Foto: Félix Carneiro / Governo do Tocantins

Conquistar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) sempre foi vista como uma etapa importante da vida adulta. Para muitos brasileiros, receber o documento representa autonomia, oportunidade de trabalho e independência. No entanto, especialistas em trânsito alertam que a habilitação nunca deveria ser tratada como ponto final do aprendizado — e, agora, esse debate ganhou ainda mais força.

Desde dezembro do ano passado, mudanças nacionais no processo de formação de condutores flexibilizaram etapas históricas da habilitação, reduziram exigências formais e diminuíram o protagonismo dos Centros de Formação de Condutores (autoescolas). Para entidades do setor e profissionais da segurança viária, o novo modelo pode ampliar lacunas na preparação de quem vai assumir o volante.

O que mudou no processo de formação

Entre as alterações implementadas, estão medidas que reduziram a rigidez do modelo anterior e abriram espaço para formatos mais flexíveis de aprendizado, com menor centralidade das autoescolas no processo, como por exemplo retirada de carga horária mínima do curso teórico e redução drástica de carga horária mínima para aulas práticas.

Na prática, críticos sustentam que baratear ou simplificar o processo não pode significar empobrecer a formação. Esse é o principal ponto de tensão: facilitar o acesso à CNH sem comprometer a segurança coletiva.

CNH certifica o mínimo — não a excelência

A habilitação comprova que o candidato atingiu requisitos mínimos legais para dirigir. Isso não significa que ele esteja plenamente preparado para o trânsito real, marcado por imprevisibilidade, pressão emocional e convivência constante com riscos.

Muitos condutores saem do processo ainda inseguros em situações como:

  • chuva intensa;
  • rodovias de alta velocidade;
  • direção noturna;
  • circulação entre motocicletas;
  • estacionamento em espaços reduzidos;
  • reação a emergências;
  • convivência com pedestres e ciclistas;
  • tomada de decisão sob estresse.

Com uma formação mais enxuta, o receio de especialistas é que essas lacunas aumentem.

Menor papel da autoescola preocupa especialistas

Os Centros de Formação de Condutores sempre exerceram função que vai além de ensinar regras e manobras. Além disso, atuam na correção de vícios iniciais, no acompanhamento técnico, na disciplina do processo e na orientação comportamental.

Quando esse papel perde relevância, cresce a preocupação com modelos improvisados de aprendizagem, baseados apenas em “aprender com parentes”, repetição de maus hábitos ou foco exclusivo em passar no exame.

Especialistas lembram que nem todo motorista experiente sabe ensinar, e experiência acumulada nem sempre significa direção segura.

Conforme Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito, a discussão não deve ser tratada apenas sob a ótica do custo ou da burocracia.

“O processo não foi barateado; foi empobrecido. Quando se reduz estrutura pedagógica, acompanhamento técnico e exigência formativa, o risco é colocar nas ruas pessoas menos preparadas para lidar com uma atividade complexa e potencialmente letal”, afirma.

De acordo com ele, dirigir não pode ser comparado a uma habilidade simples do cotidiano. “Conduzir um veículo exige conhecimento, técnica, autocontrole emocional e responsabilidade social. Quando o Estado sinaliza que isso pode ser aprendido de qualquer forma, passa uma mensagem perigosa para a sociedade”, acrescenta.

Celso Mariano também ressalta que o problema não está em modernizar métodos, mas em abrir mão da qualidade. “Inovação é bem-vinda. Flexibilização sem compromisso com aprendizagem real é outra coisa. O Brasil precisa elevar o padrão de formação, não reduzi-lo.”

O trânsito brasileiro exige mais preparo, não menos

O Brasil convive há anos com números elevados de mortes e lesões no trânsito. Nesse cenário, parte dos profissionais da área questiona se o momento adequado para flexibilizar a formação seria justamente agora.

Para quem atua com educação para o trânsito, o desafio nacional deveria caminhar em direção oposta:

  • mais consciência de risco;
  • melhor formação prática;
  • atualização permanente;
  • valorização da direção defensiva;
  • respeito aos usuários vulneráveis;
  • preparo emocional para dirigir.

Maio Amarelo reforça a mensagem

No Maio Amarelo 2026, que propõe enxergar o outro e preservar vidas, a discussão sobre formação ganha peso. Um condutor mal preparado não coloca em risco apenas a si mesmo, mas passageiros, pedestres, ciclistas, motociclistas e toda a coletividade.

Tirar a CNH não basta

Receber a CNH continua sendo importante. Mas transformar o processo em algo cada vez mais simplificado pode transmitir à sociedade a falsa ideia de que dirigir exige pouco preparo.

“No trânsito real, dirigir continua sendo uma atividade complexa, de alto risco e grande responsabilidade. E, reduzir a exigência na formação pode custar caro em vidas”, conclui Mariano.

Mariana Czerwonka

Meu nome é Mariana, sou formada em jornalismo pela Universidade Tuiuti do Paraná e especialista em Comunicação Empresarial, pela PUC/PR. Desde que comecei a trabalhar, me envolvi com o trânsito, mais especificamente com Educação de Trânsito. Não tem prazer maior no mundo do que trabalhar por um propósito. Posso dizer com orgulho que tenho um grande objetivo: ajudar a salvar vidas! Esse é o meu trabalho. Hoje me sinto um pouco especialista em trânsito, pois já são 11 anos acompanhando diariamente as notícias, as leis, resoluções, e as polêmicas sobre o tema. Sou responsável pelo Portal do Trânsito, um ambiente verdadeiramente integrador de informações, atividades, produtos e serviços na área de trânsito.

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