Anuário NTU 2025-2026 revela mudança estrutural na mobilidade urbana brasileira
Anuário NTU 2025-2026 é lançado durante o Seminário Nacional NTU e revela mudança estrutural na mobilidade urbana brasileira.

Lançado nesta terça-feira (11), durante o 39º Seminário Nacional NTU, que acontece até o dia 13 de agosto, em São Paulo, o Anuário NTU 2025-2026 apresenta um amplo diagnóstico sobre a situação do transporte coletivo urbano por ônibus no Brasil e aponta que o setor entrou em uma nova fase de sua crise, para além dos efeitos deixados pela pandemia. A publicação reúne os principais indicadores econômicos, operacionais, regulatórios e institucionais do setor e apresenta um diagnóstico abrangente sobre o transporte coletivo urbano no país. O levantamento mostra que o atual modelo de financiamento se tornou insuficiente para sustentar a operação, enquanto a perda de passageiros, o avanço da motorização individual e a dificuldade para renovar a frota impõem novos desafios às cidades brasileiras.
Um dos principais pontos registrados nesta edição do Anuário é a sanção do Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano, resultado de cerca de seis anos de articulação do setor. A legislação estabelece, entre outros avanços, a separação entre o custo real da operação e a tarifa paga pelo usuário, criando bases para um modelo de financiamento mais moderno e transparente. Ao mesmo tempo, o Anuário registra que vetos presidenciais retiraram instrumentos importantes para garantir a sustentabilidade financeira do sistema, como o custeio obrigatório das gratuidades pelo poder público e mecanismos de incentivo à transição energética.
Financiamento e perda de demanda
O estudo também evidencia que o financiamento do transporte coletivo chegou a um ponto crítico. Estima-se o custo anual do sistema brasileiro em R$ 75,7 bilhões, mas apenas 20% desse montante é coberto por subsídios públicos, concentrados em um pequeno grupo de cidades. Os 80% restantes continuam sendo pagos diretamente pelos passageiros, tornando a tarifa a principal fonte de financiamento de um serviço que produz benefícios para toda a sociedade. Além disso, o levantamento mostra que praticamente todos os subsídios existentes estão concentrados em capitais e regiões metropolitanas e continuam sendo financiados, em sua maioria, pelos municípios e estados, sem participação permanente da União no custeio operacional.
Outro diagnóstico relevante é a consolidação da perda de demanda. Depois de uma recuperação parcial no período pós-pandemia, o número de viagens por ônibus voltou a cair em 2025 e permanece em apenas 77,5% do volume registrado antes da Covid-19. O levantamento identifica ainda uma mudança estrutural no comportamento da população, marcada pela expansão do transporte individual e pelo crescimento recorde das motocicletas no país.
Os dados do mercado automotivo confirmam esse movimento.
Em 2025, o Brasil comercializou 2,2 milhões de motocicletas, crescimento de 17,1% em relação ao ano anterior; pela primeira vez, o número de licenciamentos anuais de motocicletas ultrapassou os automóveis de passeio.
“O crescimento da motocicleta não deve ser analisado isoladamente. Ele acontece justamente quando o transporte coletivo perde competitividade. Essa migração produz impactos para toda a sociedade: mais trânsito, mais acidentes, maior consumo de energia e mais emissões. O desafio não é apenas recuperar passageiros, mas devolver ao transporte coletivo as condições para voltar a ser a principal alternativa de mobilidade urbana”, afirma Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU.
Tarifa zero
O Anuário dedica ainda um capítulo específico aos limites da expansão da tarifa zero. O estudo mostra que, em junho deste ano, haviam 146 municípios adotam a tarifa zero universal e outros 46 com catraca livre para determinadas categorias de usuários ou dias da semana, mas o ritmo de adesão de novos municípios à modalidade desacelerou; além disso, a política permanece concentrada em cidades de pequeno porte. Além disso, o estudo registra, pela primeira vez, 8 casos de interrupção do benefício por dificuldades fiscais, mostrando que não é possível implementar a tarifa zero a qualquer custo, sem planejamento e sem uma política de financiamento com fontes de custeio seguras e estáveis, sob pena de descontinuidade precoce.
De acordo com a NTU, a universalização da gratuidade para todo o Brasil exigiria uma ampliação da oferta de serviço, para responder ao aumento da demanda verificado em todas as cidades onde a tarifa zero foi adotada, o que representaria um aumento expressivo dos custos do setor, reforçando a necessidade de novas fontes permanentes de financiamento.
Na área operacional, a publicação aponta que o aumento dos custos continua pressionando os sistemas de transporte. A mão de obra representa hoje o principal componente das despesas, seguida pelo combustível, cuja volatilidade voltou a afetar fortemente o setor em 2026, após a alta internacional do petróleo. Ao mesmo tempo, a idade média da frota permanece alta (seis anos e cinco meses) e a transição para tecnologias de baixa emissão avança em ritmo lento, apesar da existência de programas federais de financiamento voltados à renovação dos veículos.
Soluções
A publicação também traz um capítulo de prestação de contas da NTU, relacionando as ações desenvolvidas ao longo do último ano para o fortalecimento da mobilidade urbana brasileira. Conforme Francisco Christovam, diretor-presidente da NTU, o Anuário consolida um retrato fiel do momento vivido pelo transporte coletivo brasileiro e evidencia que os desafios vão muito além da operação dos sistemas.
“O transporte coletivo é um serviço essencial para a economia, para a inclusão social e para a sustentabilidade das cidades. Os dados mostram que chegamos a um momento decisivo: ou construímos um novo modelo de financiamento permanente, compatível com os benefícios que o transporte público gera para toda a sociedade, ou continuaremos assistindo ao avanço da motorização individual e ao enfraquecimento dos sistemas coletivos. O Anuário oferece um diagnóstico técnico e, ao mesmo tempo, aponta caminhos para essa transformação”, conclui Christovam.
