18 de janeiro de 2026

O pão-durismo de graves consequências


Por Márcia Pontes Publicado 14/04/2015 às 03h00 Atualizado 02/11/2022 às 20h32
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Pão-durismo no trânsitoTenho lá a forte percepção de que a sociedade desaprendeu a pensar e a exercer a própria segurança no trânsito diante de argumentos que colocam a própria incolumidade e o dever de proteger a própria vida em último lugar na escala de valores. Exemplos? Proliferam nas cidades brasileiras a quantidade de arremedos de bicicletas motorizadas, aquelas com motor de dois tempos, improvisados, feitos com motor de moto serra, de cortador de grama, ou mesmo motores a combustão enjambrados em oficinas clandestinas. O cidadão circula com uma engenhoca dessas pelas vias públicas, vias rápidas e até em áreas lindeiras às rodovias, colocando a si próprios e aos outros em risco. Daí, vêm aqueles que levantam bandeiras falando no direito a buscarem alternativas econômicas para se locomoverem. A este custo? O da própria vida e da vida dos outros? Na clandestinidade, sem equipamentos de proteção e contra as leis de segurança?

Será que não caiu a ficha de que estamos à beira de uma sociedade dos inválidos por acidentes em veículos de duas rodas já regulamentados e com condutores devidamente habilitados? Tem que abusar da irresponsabilidade e provocar mais acidentes?

Alguns argumentos são de pasmar e ganham em bizarrice, como aquele de condutores jovens, de comportamento e atitudes desafiadoras que dizem que a engenhoca é deles, que foram eles que pagaram pela enjambração perigosa e que ninguém tem nada com isso. Só que na hora em que o moço ou a moça provoca um acidente em via pública sem capacete ou qualquer outro dispositivo de segurança ele vai ser socorrido por viaturas de resgate que são públicas, cujos salários dos socorristas e o combustível são pagos com dinheiro público.

A irresponsabilidade e a arrogância desses cidadãos vão levá-los a ocupar leitos em hospitais públicos, a cirurgias e internações pagas com dinheiro público. Como não temos nada com isso?

Aí os engenheiros se matam para pesquisas e desenvolver estudos e dispositivos de segurança como a viseira para que o condutor não fique cego quando um inseto invadir seu olho enquanto dirige, mas ele reclama caso seja autuado por não usar a viseira. Não demora muito e o discurso viciado de indústria da multa já é pronunciado.

O mesmo ocorre em relação ao capacete: caiu, bateu com o capacete no chão, danificou? Em nome da segurança troca-se de capacete, mas o pão-durismo de graves consequências vai falar mais alto para muitos e o condutor vai continuar dirigindo a moto com um capacete fora da validade para a segurança. Aí se envolve em outro acidente e o que ele tem de mais precioso, a vida, se esvai. Ou fica com graves sequelas neurológicas por conta da “economia” que fez.

E as luvas, então? São equipamentos que protegem as mãos dos motociclistas, justamente porque na queda, tombamento ou colisão da moto no acidente o condutor tem o reflexo imediato de apoiar as mãos no solo para tentar amortecer a queda. Mas, não! Luva é cara! Não compensa! Aí se envolve em acidente e a primeira coisa que rala profundamente no asfalto são as mãos, não raro com esmagamento ou amputação de dedos. Que economia burra é essa?

E cadeirinha para as crianças? Para quê, se elas afinal vão crescer rápido, o casal não vai querer mais filhos e vai acabar acumulando o prejuízo de ficar com a cadeirinha ocupando espaço na despensa. E quanto vale a vida do seu filho nessas contas em um país em que anualmente 7 mil crianças com idade até 7 anos ficam inválidas no trânsito?

Tudo que se fala em segurança no trânsito é levado ao pé do discurso da indústria da multa: alguém sempre vai querer lucrar, arrecadar, arrecadar… parece que a cegueira coletiva é pior do que se pensa.

O que houve com a sociedade, gente? Perdeu a capacidade de pensar? Perdeu a razoabilidade? Tudo que se fala em segurança no trânsito tem que ser precificado, taxado de indústria da multa ou arrecadação? Pois, saibam que segurança no trânsito é investimento, não é gasto.

Não economize tanto assim quanto à própria segurança no trânsito porque esse pão-durismo de graves consequências vai fazer você gastar todas as “economias” com a funerária. Vamos acordar, gente! Isso explica tantos acidentes, sequelas e mortes por falta de autocuidados. Educação para o trânsito para a população já! Passou da hora! Começando por ensinar a pensar.

 

Márcia Pontes

Meu nome é Márcia Pontes, sou educadora de trânsito em Blumenau (SC), Graduada em Segurança no Trânsito na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e colunista de assuntos de trânsito do Portal de Notícias Blumenews. Sou pesquisadora do medo de dirigir e dos métodos de ensino da aprendizagem veicular pelo método decomposto, desenvolvido na Suíça e difundido em autoescolas italianas.Em 2010 iniciei nas redes sociais um trabalho de Educação Para o Trânsito Online (EPTon) utilizando a força das mídias sociais (Orkut, Facebook, Blog, MSN, Twitter, Youtube) com foco no acolhimento emocional, aprendizagem significativa e dicas de direção defensiva, ética e cidadania no trânsito.Escrevo o Blog Aprendendo a Dirigir voltado para alunos em processo de habilitação nos CFC e para motoristas habilitados com dificuldades e medo de dirigir. O foco deste trabalho voluntário reconhecido internacionalmente leva acolhimento emocional, aprendizagem significativa e fundamentos de ética, cidadania e humanização do trânsito para evitar acidentes, sobretudo por imperícia.No ano de 2012 publiquei o livro digital Aprendendo a Dirigir: aprendizagem pelo método decomposto para evitar traumas e acidentes durante a (re)aprendizagem da direção veicular. Em 2013 publiquei o livro Aprendendo a Dirigir: um guia prático de exercícios para quem tem medo de dirigir.Sou apaixonada por trânsito, respiro, pesquiso cientificamente e vivo o trânsito com compromisso existencial. A principal luta da minha vida: contribuir para rever e atualizar os métodos de ensino da direção veicular no Brasil substituindo o adestramento do aluno e a memorização pela construção de conceitos e de significados sobre o ato de dirigir defensivamente.

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