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16 de julho de 2024

Artigo – Leme quebrado


Por Artigo Publicado 11/05/2022 às 21h18 Atualizado 08/11/2022 às 21h10
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J. Pedro Corrêa comemora seu 100º artigo e aproveita para comentar algumas lições que se pode tirar desta experiência para consertar o leme quebrado. 

Você possivelmente não tenha observado mas este é o 100º artigo que escrevo neste espaço. Cem textos, um por semana, sempre sobre a temática da segurança no trânsito. Objetivo único: debater a segurança no trânsito, buscar novos ângulos de abordagens para discussão, informando, instruindo, aprendendo. Julgo valer a pena dividir com você algumas considerações sobre esta experiência.

Não sei se também foi para você, mas para mim foi muito gratificante trocar estas ideias.

Chegamos a um momento da vida em que temos a obrigação moral de devolver à sociedade um pouco do que aprendemos com ela. A querida poeta goiana Cora Coralina dizia que “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Ela, que teve seu primeiro livro publicado aos 76 anos, deixou uma bela contribuição à cultura brasileira. Eu, encarando a grande interrogação do trânsito brasileiro, aos 78, atento ao relógio da vida, tenho consciência de que os deveres de casa não estão terminados e que há, ainda, muito mais por fazer.

Chegar aos cem artigos foi muito bom mas isto traz alguns pontos para reflexão. Um deles fica por conta de não saber ao certo nem quem nem quantos estão me lendo e daqueles que me seguem, que utilidade fazem do que tenho escrito. Fragmentos de respostas surgem a cada novo artigo, que chegam dos mais diversos pontos do país, e isto é incentivador para continuar.

O lado negativo fica por conta da constatação de que o progresso feito até aqui pelo nosso trânsito não corresponde ao esperado.

Você pode até dizer que há 30 anos, quando comecei esta jornada, o trânsito brasileiro matava 27 mil pessoas por ano e hoje, 35 anos depois, registra pouco mais de 30 mil mortos, considerando que a população, frota e número de motoristas aumentaram 3 vezes. Apesar deste aparente lado vitorioso, admitir a morte anual de mais de 30 brasileiros, é duro. A sensação é como se você estivesse navegando em mar revolto, sabendo qual é o destino mas, angustiado, constata que o leme está quebrado.

Este sentimento me faz lembrar a visita dos vencedores do Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito ao maior hospital da Escandinávia, o Karolinska, de Estocolmo, na Suécia, quando fomos recebidos pelo cirurgião Lennart Malmstrom, diretor do setor de tratamento de traumas. Eram 9 horas da manhã e ele estava exausto porque havia passado a noite trabalhando, tentando salvar a vida da ministra das relações exteriores sueca, Anna Lindh, esfaqueada na noite anterior numa loja de departamento da cidade. Quando expliquei ao grupo brasileiro o motivo da tristeza do médico sueco, a turma respondeu uníssona “Mas ele não teve culpa!”, ao que ele respondeu: “Sim, mas nós trabalhamos para salvar as pessoas e não para vê-las morrer”. De certa forma, respeitadas as diferenças, creio ser este também o sentimento dos amigos brasileiros que se dedicam para salvar vidas no nosso trânsito violento.

Voltando ao meus 100 artigos, imagino que a pergunta que você, leitor, deve estar fazendo é: o que tentei passar nestes dois anos e, mais importante que isto, o que aprendi, escrevendo?

O objetivo maior destes artigos está amarrado com a missão que me determinei quando iniciamos o Programa Volvo de Segurança no Trânsito, em 1987. A meta do Programa era instigar a sociedade a buscar respostas para uma pergunta tão simples quanto complicada: “O que fazer para diminuir o número e a severidade dos acidentes de trânsito?”, que continua valendo até hoje. Minha missão pessoal/profissional desde então, passou a ser esta também: ajudar governos, entidades, empresas, ONGs, instituições de ensino a discutir mais o trânsito para entendê-lo melhor e, assim, forjar respostas concretas para reduzir as perdas. Ainda que estejamos longe do objetivo final, demos bons passos à frente nesta longa caminhada.

Podemos também comemorar já sermos uma comunidade de bom tamanho, “vendendo” segurança no trânsito. No final dos anos 1980 eram pouquíssimos os que se interessavam pelo tema mas o grupo foi crescendo e creio que posso dizer que hoje somos dezenas de milhares de interessados espalhados pelo Brasil. Se considerarmos o interesse que o assunto desperta hoje na imprensa, na mídia social, nas entidades, nas empresas e nos órgãos de governo, é possível dizer que a primeira fase da grande ambição de fazer do trânsito um tema presente no cotidiano brasileiro está atingida. Resta levar adiante.

Durante estes anos, a prática ensinou que devemos aprender a jogar com as cartas que temos sem reclamar das que recebemos.

Os obstáculos da segurança no trânsito são visíveis. Não é uma prioridade nacional, nossos políticos não demonstram maior interesse por ela, o setor privado está acordando aos poucos para o tema e a sociedade tampouco se mobiliza pela causa sem ser provocada. Se estes são muros a serem transpostos, precisamos nos organizar para estabelecer as estratégias apropriadas. E, novamente, aí temos problemas. Somos uma comunidade fragmentada, bem como espalhada pelas diversas regiões do país, sem uma liderança única e sólida, capaz de catalisar todas estas forças.

Posso afirmar com segurança que melhoramos bastante nosso nível de conhecimento sobre segurança no trânsito.

No início da da pandemia, o advento da experiência dos grupos de discussão na Internet deu uma alavancada muito grande colocando em contato direto profissionais experientes com interessados em fase de crescimento. Por outro lado, boas experiências em algumas cidades estão servindo de modelos para muitos outros municípios. No plano federal o governo se esforça para que o PNATRANS comece a produzir seus primeiros resultados.

Minha esperança é que, com o passar do tempo, sejamos capazes de aglutinar melhor os esforços existentes. Além disso, que tenhamos capacidade de melhorar os índices nacionais de sinistros de trânsito que continuam bem abaixo do esperado.

Consertar o leme quebrado

Para isto, precisamos recolocar o barco do trânsito no rumo certo, consertar o leme quebrado e nos prepararmos para o grande futuro.

*J. Pedro Corrêa é consultor em programas de segurança no trânsito

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