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23 de fevereiro de 2024

Como a mobilidade urbana pode ajudar no período de volta às aulas

Veja como ações e iniciativas voltadas para a mobilidade urbana podem ajudar no período de volta às aulas.


Por Pauline Machado Publicado 15/02/2023 às 13h30
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Volta às aulas mobilidade urbana
Luis Fernando Villaça Meyer é diretor de Operações do Instituto Cordial. Foto: Arquivo Pessoal

A volta às aulas sempre traz com ela mudanças no trânsito, em sua grande maioria, mais congestionamento e transtornos para quem circula pelas vias. Diante dessa evidência, pensamos sobre como as ações e iniciativas voltadas para a mobilidade urbana podem ajudar no período de volta às aulas.

Para saber como isso poderia – ou pode acontecer, conversamos com exclusividade com Luis Fernando Villaça Meyer, diretor de Operações do Instituto Cordial.

Acompanhe!

Portal do Trânsito – De modo geral, quais são os maiores desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras?

Luis Fernando – O primeiro desafio da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras é reduzir as ocorrências de mortes e feridos graves decorrentes de sinistros de trânsito. No Brasil, ocorrem cerca de 32 mil mortes anualmente (DATASUS, 2021). Não é aceitável que ainda tenhamos tantas pessoas morrendo no trânsito todos os anos.

Neste sentido, um dos principais desafios está relacionado com a segurança viária dos motociclistas, já que há um grande aumento da frota de motocicletas nos últimos 20 anos no Brasil, e temos visto um aumento significativo de mortes no trânsito envolvendo estas pessoas.

Além disso, durante a pandemia do Covid 19, em 2019, pela primeira vez, o número de motociclistas superou o de pedestres entre as vítimas fatais no trânsito em São Paulo e em diversas regiões do Brasil, revelando a vulnerabilidade dos motociclistas e a urgência por evitar sinistros fatais.

Para além dos desafios na segurança viária, na mobilidade das cidades brasileiras, ainda é muito forte a cultura que prioriza o automóvel privado motorizado e o uso de altas velocidades em detrimento de uma cultura que prioriza modos de transporte coletivos e ativos (andar a pé ou de bicicleta) e a segurança de todos os usuários do sistema de mobilidade urbana. A quantidade de pessoas que se deslocam de transporte coletivo vem caindo nos últimos tempos, mas é fundamental que este modo seja reforçado, reduzindo a quantidade de veículos nas ruas. Esse aumento deve vir aliado a novas frotas que tenham menos emissões, utilizando novos veículos elétricos, por exemplo.

A mobilidade ativa também precisa de melhores infraestruturas, como investimento em calçadas e ciclovias, de forma que as pessoas possam se deslocar na cidade de forma segura. Hoje temos muito claro que quanto melhor são estes equipamentos, mais seguras as pessoas se sentem para usá-los, substituindo outros modos de transporte mais inseguros, custosos e menos sustentáveis.

Portal do Trânsito – Neste cenário, em que consiste o Painel Brasileiro de Mobilidade Segura e Sustentável?

Luis Fernando – O Painel Brasileiro da Mobilidade Segura e Sustentável – PBM, é uma iniciativa nacional que busca contribuir para o desenvolvimento de uma mobilidade mais acessível, segura e sustentável no Brasil. Através do PBM, são criados espaços de discussão e desenvolvidos estudos baseados em dados e evidências, articulando poderes públicos, especialistas, empresas e organizações da sociedade civil para aprofundar debates sobre desafios complexos na mobilidade, contribuindo para a qualificação de ações privadas e orientação de políticas públicas. A iniciativa vem desenvolvendo uma série de estudos em parceria com a prefeitura de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza.

O Painel Brasileiro da Mobilidade está alinhado com as abordagens dos Sistemas Seguros, que preconiza que o sistema de mobilidade deve ser seguro, concebido de forma a reduzir os riscos de que um sinistro de trânsito leve a uma morte ou lesão grave. Argumenta que a responsabilidade pela segurança no trânsito é compartilhada entre todos – e não somente do usuário ou do setor público – e parte da Visão Zero, princípio criado na Suécia na década de 1990 que defende que nenhuma morte no trânsito é aceitável.

Portal do Trânsito – E, pensando em mobilidade urbana no Brasil, qual é ou quais são as maiores demandas das grandes cidades?

Luis Fernando – Nas grandes cidades, principalmente as latino-americanas e brasileiras, algumas das maiores demandas em relação à mobilidade urbana estão relacionadas ao fato de que essas cidades concentram quantidades enormes de habitantes que se locomovem diariamente entre casa e trabalho ou casa e escola. Esse movimento pendular (casa-trabalho-casa) implica em deslocamentos massivos em longas distâncias, já que nem sempre as áreas residenciais acessíveis para a maioria da população estão localizadas perto de setores de concentração de trabalho. Além disso, tais deslocamentos representam uma demanda muito maior do que a maioria dos sistemas viários e de transporte público existentes suportam, resultando em transportes coletivos lotados e sobrecarregados, em trânsito de automóveis e em tempos extensos de deslocamento.

Além disso, outra demanda fundamental para a mobilidade das grandes cidades está relacionada com a segurança viária, afinal, a manutenção da vida de todos que se movimentam pela cidade deve ser sempre a prioridade absoluta em todas as decisões que forem tomadas no contexto da mobilidade, seja pelo motorista de um carro ou pelos profissionais responsáveis pelo desenho viário.

Portanto, é necessário um sistema de mobilidade que de fato atenda às necessidades de toda a população e que mantenha cada pessoa saudável e segura em seus trajetos cotidianos, um sistema que seja acessível tanto fisicamente como financeiramente, um sistema que perdoe os erros humanos e evite sinistros graves e fatais.  

Portal do Trânsito – Neste aspecto, de que modo as iniciativas do Painel Brasileiro de Mobilidade Segura podem contribuir para a mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras?

Luis Fernando – O Painel Brasileiro da Mobilidade funciona através de ciclos anuais com atividades estruturadas em sete eixos. Fazemos o acompanhamento do que há de mais relevante e novo na mobilidade urbana. Também mapeamos os atores envolvidos na temática e promovemos atividades e encontros para aprofundar o debate sobre questões complexas da mobilidade.

Além disso, processamos dados e geramos indicadores necessários para desenvolver estudos que embasam políticas públicas de mobilidade e de segurança viária. Isso é feito tanto nas cidades parceiras (Belo Horizonte, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo) como em outras cidades de todo o país. Por isso, o Instituto Cordial é um think and do tank. Que quer dizer, não só pensar nem só fazer, mas sim pensar para fazer (think to do), gerando conhecimento que embase projetos e ações.

Adicionalmente, fomentamos a comunicação e disseminação de conhecimento através das nossas redes sociais (Painel Brasileiro da Mobilidade – LinkedIn e Painel Brasileiro da Mobilidade – Instagram). Além disso, através de lives quinzenais no canal do youtube do PBM (Painel Brasileiro da Mobilidade – YouTube). O Painel também colabora com uma variedade de iniciativas de parceiros estratégicos. Assim, transformando redes, dados e conhecimento em projetos e ações articuladas frente à segurança viária.

Portanto, o Painel Brasileiro da Mobilidade colabora com a mobilidade urbana das cidades brasileiras, tanto através de dados e evidências que dão embasamento e fortalecem intervenções viárias e políticas públicas, como através de espaços de discussão entre atores com perspectivas variadas sobre as diretrizes de temas críticos para a mobilidade. Em 2022, por exemplo, o PBM promoveu duas mesas-redondas, uma sobre logística urbana e outra sobre fiscalização. Ambos os eventos reuniram representantes do setor público, do setor privado, acadêmicos, terceiro setor e sociedade civil interessados e especializados em cada temática. O objetivo era encontrar sinergias que possam contribuir para o desenvolvimento de agendas comuns.

Portal do Trânsito – Com relação a volta às aulas, quais são os maiores entraves para o dia a dia dos pais e alunos com relação ao trânsito?

Luis Fernando – Se você puder fazer sua viagem sem ser de automóvel ou de motocicleta, prefira sempre ir andando, de bicicleta ou de transporte público. Procure sempre reduzir as distâncias que você precisa percorrer diariamente. Se neste começo de ano você estiver procurando uma nova escola, um novo trabalho ou um novo local de moradia, prefira aqueles mais perto das suas outras atividades. Mas sabemos que nem sempre isso está no nosso poder. Então, se você precisar percorrer longas distâncias todos os dias e precisar ir com seu veículo particular, não tente chegar mais rápido. Diversas pesquisas mostram que a velocidade é o maior fator de risco para mortes no trânsito.

Portanto, antes de tudo, a dica para os motoristas nesse período de volta às aulas é lembrar de sempre priorizar a segurança no trânsito. Todos os cidadãos devem basear as suas decisões de mobilidade, da escolha do meio de transporte até a atenção dada ao entorno, na premissa de que as pessoas, principalmente as crianças, são vulneráveis. A responsabilidade pela segurança viária de todos que habitam a cidade é compartilhada entre o poder público, empresas e por cada um que se desloca por ela, então devemos, todos, fazer a nossa parte.

Portal do Trânsito – Quais são as propostas, as perspectivas para melhorias na mobilidade urbana nas grandes cidades com a volta das aulas?

Luis Fernando – Há alguns bons exemplos de intervenções feitas por prefeituras brasileiras no entorno das escolas para lidar com a mobilidade. E, além disso, proteger as pessoas que passam por ali, especialmente as crianças. Estão sendo licitados em São Paulo alguns projetos neste sentido. Como o Programa Rota Escolar Segura, que foca em medidas para aumentar a segurança viária nos caminhos utilizados pelos estudantes para chegar às escolas. Mas são diversas as possibilidades de planos, programas e obras que devem ser feitas e ampliadas. Dessa forma, moderando o tráfego, reduzindo a velocidade dos veículos, ampliando o espaço das calçadas, melhorando a sinalização viária, priorizando, enfim, as pessoas.

Programas como estes estão alinhadas com o Plano de Segurança Viária da cidade, que o Instituto Cordial teve a oportunidade de colaborar com o diagnóstico. Ele está ancorado da chamada “Visão Zero”, que diz que nenhuma morte no trânsito é aceitável. Outros programas também estão sendo licitados na cidade de São Paulo com estes objetivos. São exemplos o Programa Áreas Calmas e o Programa Vias Seguras. O primeiro realizando a readequação dos limites de velocidade em perímetros comerciais críticos para segurança viária para pedestres. Já o segundo requalificando corredores de transporte coletivo, também para reduzir sinistros de trânsito.

Este tipo de medida deve ser adotado em toda a cidade, priorizando os pedestres e ciclistas, os chamados “modos ativos” de deslocamento. Mas os entornos das escolas são espaços que devem ser entendidos como prioritários. Ainda mais agora considerando a volta às aulas e o grande volume de pessoas que volta a se concentrar no entorno das escolas.

O Instituto Cordial realizou recentemente uma live sobre projetos desta natureza, que podem servir de exemplo. Para promover maior segurança nos trajetos realizados por crianças e adolescentes no caminho à escola, as cidades do Rio de Janeiro e Jundiaí desenvolveram projetos de intervenções para a melhoria do espaço urbano ao redor destes espaços que podem servir de exemplo para outras cidades. A live pode ser acessada no seguinte link: Cidades para crianças: ruas seguras no caminho da escola 

Portal do Trânsito – Quais são os desafios para termos progresso sustentável nas questões de mobilidade urbana nos períodos de volta às aulas?

Luis Fernando – Em primeiro lugar, é preciso lembrar que temos estudantes de diversas faixas etárias e que vão estudar usando variados modos de transporte. Isso inclui desde familiares levando seus filhos pequenos ao ensino infantil até adultos indo à faculdade. Para se ter uma ordem de grandeza, o motivo escolar é o segundo maior gerador de viagens na região metropolitana de São Paulo. De acordo com dados da última pesquisa de origem e destino do Metrô do Estado de SP de 2017, eram quase 15 milhões de viagens diárias, ante 18,5 milhões a trabalho. E pelo momento que estamos vivendo da pandemia, a maioria dos estabelecimentos de ensino já voltou às atividades normais.

Então, o final das férias escolares realmente implica um aumento considerável de volume de pessoas e veículos se deslocando na cidade. Especialmente por volta dos horários de pico no começo do dia, na hora do almoço e no final da tarde. Já podemos sentir isso nas ruas, não só no entorno das escolas e outros estabelecimentos de ensino, mas na cidade como um todo. Vamos ver rapidamente um aumento de trânsito e do tempo que as pessoas vão demorar para fazer suas viagens diárias.

Ao mesmo tempo, muitas viagens à escola são feitas a pé ou de transporte público. Então, existe um risco maior de atropelamentos no entorno dos estabelecimentos de ensino. Por mais que as mortes de pedestres venham gradualmente caindo há algum tempo no Brasil, ainda não é uma questão resolvida. E estes locais são especialmente delicados, ainda mais envolvendo crianças.

Os acidentes de trânsito são a principal causa de mortes de crianças e jovens na faixa etária dos 5 aos 29 anos no mundo. Os dados são da Organização Mundial da Saúde.

Portanto, apesar do o excesso de carros nas ruas e das as filas duplas na frente das escolas gerarem problemas na fluidez viária, a questão mais preocupante na volta às aulas é, com certeza, a preservação da vida e garantir que estudantes de todas as idades possam se locomover com segurança até as respectivas instituições de ensino.

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